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O Sporting é a paixão que nos inspira. Não confundimos competência com cultos de personalidade. 110 anos de história de um clube que resiste a tudo e que merece o melhor e os melhores de todos nós. Sporting Sempre


07
Fev17

A Mercearia

por Ivaylo

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Perto do Lumiar fica a Mercearia Leão. Como tantas outras, teve na sua criação uma raiz familiar que perdurou por alguns anos, mas entretanto decidiu o senhor Alfredo (neto do fundador), para fazer face aos novos desafios de uma economia globalizada, que a mesma se devia organizar como uma cooperativa.

 

É então decidido, juntamente com os demais membros da cooperativa, que para a Mercearia ser sustentável deveria acentuar a sua já anterior aposta em vender fruta e legumes nacionais de produção própria. Até esse momento, o senhor Alfredo tinha uma pequena horta na vizinhança da Mercearia. Numa perspectiva de aproveitar a Lei das Economias de Escala, bem como incrementar a qualidade final do produto, resolvem adquirir uns terrenos na margem sul do rio Tejo. É solicitada certificação por parte da ASAE e arranca a produção.

 

É igualmente decidido, e concretizado, que a própria Mercearia seria demolida para se construir um novo espaço mais de acordo com o que um cliente espera encontrar num espaço comercial após o ano 2000. Fica apenas por concretizar a construção, num anexo da Mercearia, de um espaço que permitisse vender enchidos gourmet. Ainda que o core business da Mercearia fossem os legumes e fruta, sempre fora também conhecida pela sua charcutaria. Lamentavelmente, devido a diferendos com a repartição municipal responsável pelo licenciamento de lojas gourmet, fica essa obra por fazer durante largos anos (como em qualquer tema autárquico poderia ter-se resolvido “de outra forma” mas o senhor Alfredo pauta a sua conduta por uma ética irrepreensível).

 

O senhor Alfredo, pensando ter assegurado as bases de desenvolvimento do negócio, acha que é tempo de se afastar do negócio outrora familiar. Os anos passam-se, e pela liderança da cooperativa vão passando várias pessoas, quase todas com um ponto em comum: percebem muito pouco de agricultura e menos ainda de comércio local.

 

Eis se não quando, munido de curso tirado ao abrigo do Programa Jovens Agricultores, aparece em cena alguém que afirma ter a solução para o desempenho periclitante da Mercearia. Afirma, e bem, que os custos inerentes à exploração da Mercearia e dos terrenos da margem sul têm que baixar para um nível mais equilibrado. Preconiza, e bem, que a Mercearia tem de voltar à sua matriz de vender a produção própria. Com este discurso consegue levar de vencida o seu concorrente na eleição.

 

Mantém tudo o preconizado no seu primeiro ano. Complementa o cardápio com umas mangas importadas da Argélia e café da Colômbia, percebe-se, pois em Portugal é com dificuldade que se plantam mangas ou café.

 

Dá-se uma recuperação até surpreendente para alguns elementos mais pessimistas da cooperativa. Nessa recuperação foi também de extrema importância um jovem engenheiro agrónomo que tinha terminado o curso com média de 18, que trata tão bem a lavoura que atrai as atenções de um investidor de leste e é levado a montar um negócio semelhante, de raiz, em França.

 

O líder da cooperativa, achando que o lugar de engenheiro-chefe é de crítica importância, aborda outro jovem engenheiro – este com média de 17. E é aqui que começam a acontecer coisas estranhas. Sem que o engenheiro tenha pedido, sai da Mercearia o segurança que no ano anterior tinha impedido uma série de meliantes de vandalizarem a Mercearia. Sem que o engenheiro tenha pedido, começa a ser importada fruta estrangeira de origem não certificada – alguma pronta a consumir, mas também algumas sementes para os terrenos da margem sul. O engenheiro estranha, até porque se importam sementes de pêra francesa e a pêra rocha do Oeste é muito melhor, mas tenta ir equilibrando as vendas da melhor maneira. Entretanto, aparece até um ex-trabalhador rural que é agora um conhecido vendedor de joalharia pechisbeque na Feira de Carcavelos, a afirmar que o engenheiro quer é vender a sua própria fruta, apesar de este nem sequer ter uma horta…

 

De situação estranha em estranha situação se vai andando até ao desfecho. O líder da cooperativa diz que não conta mais com o engenheiro porque um dia ele não levou o chapéu de palha. A questão é que o engenheiro entretanto ainda consegue uma medalha de prata num concurso agrícola, e, com isso cativa muitos dos membros da cooperativa.

 

O líder da cooperativa percebe então que, estando à frente de uma organização comunitária e não da sua própria loja, tem que agir de acordo com a vontade da maioria dos membros. Tem uma ideia bombástica: «… há ali um gajo na Mercearia de Carnide que toda a gente pensa que tem feijões mágicos… MUHAHAHAHAHAH!!». Se bem o pensou, melhor o fez. Em menos de um mês estava o jovem engenheiro a explorar uma leitaria especializada em iogurte grego e estava o ex-capataz de Carnide a colaborar com a cooperativa.

 

Se no ano que aí terminava já tinham acontecidos coisas estranhas – como a importação de pêra francesa – agora com o capataz os eventos precipitam-se a uma velocidade vertiginosa. A começar com a velocidade a que euros saem da conta da cooperativa para a conta do capataz. É que o capataz apesar de só ter a 4ª classe, conseguiu com a sua fama de produzir feijões mágicos ganhar um vencimento ao nível dos melhores engenheiros agrónomos do Mundo.

 

Adicionalmente, acentua-se a aposta na importação de fruta estrangeira e a passa-se a subalugar a produção própria a outras mercearias de menor expressão. Ganham essas mercearias, que passam a ter mais clientes devido à melhor qualidade dos produtos, perde a Mercearia Leão.

 

Perde a Mercearia porque a fruta estrangeira paga grandes taxas aduaneiras, além de só poder ser tratada com fertilizantes da Monsanto (que são muito mais caros e com consequências para a saúde do consumidor final). Perde a Mercearia porque o capataz, além de sair caro, constantemente declara que ele é que inventou o arado.

 

Após dois anos, após as vendas voltarem a níveis anteriores, após os custos dispararem devido às taxas e aos fertilizantes, após alguma da produção teimar em crescer menos devido ao arado usado, o líder da cooperativa tem que dar explicações aos demais associados, que começam a revelar descontentamento.

 

Ouve-se e lê-se a seguinte causa: o gato da vizinha, apesar de não ter asas, consegue sobrevoar a plantação e estragá-la com a sua urina (tóxica como se sabe). Mais, esse gato consegue falar. Mais, esse gato tem botas que comprou no Colombo. Espantosamente alguns membros da cooperativa acreditam e acusam os restantes, menos voltados para o sobrenatural, de serem muçulmanos.

 

Moral da história: os gatos miam e não existem feijões mágicos.

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